← All posts

Análise Prática do Atrito e Interação Superficial

Aug 29, 2026

Sir Isaac Newton

Por Gabriel Wondracek, Ágata Tonet e Paulo Amarante — Física Experimental

#Objetivos

Medir os coeficientes de atrito estático e cinético entre a superfície de uma rampa e a superfície de um recipiente retangular com base de feltro.

#Introdução teórica

A primeira parte do primeiro experimento é referente a uma rampa a qual tinha instrumentos para medição de ângulo de inclinação e tamanho. Um objeto retangular com base de feltro foi disposto em uma das extremidades da rampa móvel, sendo assim a rampa foi inclinada até que o objeto começasse a deslizar, após o deslize, o objeto era colocado no início da rampa e então o ângulo era ajustado para que o objeto deslizasse novamente, assim o ciclo foi repetido 5 vezes para análise dos ângulos obtidos. Na segunda parte a rampa foi disposta em um dado ângulo anotado anteriormente, o objeto foi posicionado no início da mesma, assim foi deixado deslizar até bater no final da rampa e tal tempo foi cronometrado, após isso foi analisado a distância que o mesmo percorreu em dado tempo, o ciclo foi refeito cinco vezes, tomando o cuidado para a posição inicial do objeto ser sempre a mesma.

Antes da segunda parte, o objeto e um gancho adjunto a uma corda tiveram a massa medidas em uma balança, após esta etapa os itens foram fixados cada um em um respectivo lado da corda, adiante o objeto foi posicionado em uma rampa deslizante entretanto com um ângulo de inclinação de 0°, o qual continha uma polia em uma ponta, assim a corda foi posta nesta mesma polia e o gancho ficou suspenso, em seguida foi adicionado pesos com cuidado ao gancho, após o objeto sair do atrito estático e entrar em regime de atrito dinâmico, alguns pesos foram retirados, este processo se repetiu até termos uma faixa considerada decente entre o limiar do regime de atrito estático e dinâmico, importante considerar que durante este experimento o atrito da polia foi desconsiderado.

#Fundamentação Teórica e Modelo Físico

O sistema físico foi modelado utilizando fundamentos e simplificações frequentemente usados em Física I, baseado nas Leis de Newton e no atrito entre superfícies.

#Parte 1: Deslize Cronometrado em um Plano Inclinado

Força de Atrito

A força de atrito é uma força de contato entre superfícies que se opõe à tendência de movimento. Ela pode ser classificada em dois regimes:

  1. Atrito Estático (): Força de atrito que atua quando o objeto está em repouso ou na iminência de deslize, seu valor máximo é dado por:

Onde é o coeficiente de atrito estático e é a força normal exercida pela superfície.

  1. Atrito Cinético / Dinâmico (): Força de atrito atuante sobre um corpo que já está em movimento. Podemos calcular seu valor por:

Onde é o coeficiente de atrito dinâmico e é a força normal. O coeficiente de atrito dinâmico sempre será menor que o estático para um mesmo par de superfícies.

Ambos os coeficientes de atrito dependem da natureza e rugosidade das superfícies em contato, sendo praticamente independente da área de contato entre elas [4]. A comparação entre os valores obtidos feita nas Conclusões é justificada por essa propriedade: mesmo com os valores sendo obtidos por métodos diferentes, como ambos descrevem a mesma grandeza física, é esperado que cheguem em resultados próximos.

O cálculo da força de atrito é uma aproximação e assume premissas que não condizem totalmente com a realidade tribológica, especialmente no limiar de transição entre repouso e movimento [2, cap. 5, p. 117].

Decomposição das Forças no Plano Inclinado

Considerando um corpo de massa sobre uma rampa inclinada de ângulo com a horizontal, as forças atuantes são:

  • Força Peso: , vertical para baixo;
  • Força Normal: , perpendicular à superfície do plano;
  • Força de Atrito: , paralela à superfície, oposta à tendência de movimento.

Decompondo o peso nas direções paralela e perpendicular ao plano:

A força normal, na ausência de outras forças verticais, equilibra a componente perpendicular:

Já a força de atrito, no experimento, equilibra a componente do peso paralela à rampa, portanto:

Quando a inclinação da rampa aumenta, a componente paralela do peso () fica maior, enquanto a força normal exercida pela superfície () diminui. O objeto permanece em repouso enquanto a força de atrito () consegue anular os efeitos da parte paralela da força peso.

Na iminência do deslizamento, o ângulo () atinge um valor crítico e a força de atrito atinge seu maior valor. Pela Primeira Lei de Newton:

Pelo modelo assumido, fica determinado que o coeficiente de atrito estático depende da tangente do ângulo crítico de deslizamento.

Dinâmica do Deslizamento do Objeto e Coeficiente de Atrito Dinâmico

Ao romper o atrito estático, o corpo entra em movimento sob um ângulo constante , a componente do peso paralela ao plano () se torna maior do que a força de atrito dinâmico, contrária ao deslize. Pela Segunda Lei de Newton, temos uma força resultante que causa uma aceleração :

Modelo Cinemático

O corpo parte do repouso () de certa posição inicial até a colisão com a mesa percorrendo uma distância , a aceleração teórica encontrada pode ser relacionada ao tempo cronometrado pela equação horária da posição:

Relacionando a aceleração obtida pela dinâmica com a aceleração cinemática é possível calcular o coeficiente de atrito dinâmico ():

Concluímos que o coeficiente de atrito dinâmico corresponde à inclinação geométrica da rampa diminuída de uma parcela proporcional à aceleração do corpo.

Substituindo a aceleração cinemática , a equação pode ser lida de forma simplificada por , dela decorre que:

  • A massa () do corpo não integra a expressão final;
  • Alta sensibilidade ao tempo experimental ().

#Parte 2: Sistema Plano Inclinado, Polia e Massa Suspensa

Em contraste com o corpo livre na rampa da situação anterior, no segundo experimento temos um conjunto de massas ligadas por um fio através de uma polia, o objeto com base de feltro foi posicionado na rampa e o outro tratava-se de um gancho suspenso que permitia acréscimo e decréscimo de pesos padrão. A massa do fio foi combinada à massa do gancho. As equações de equilíbrio para o sistema são:

Igualando as duas equações encontramos o coeficiente de atrito estático:

#Incertezas, Tipo A, Tipo B e Propagação

As medições realizadas no experimento são acompanhadas de suas incertezas padrão, considerando as duas naturezas definidas como Tipo A e Tipo B: a avaliação Tipo A é associada à dispersão estatística de medições repetidas, enquanto a avaliação Tipo B é associada a efeitos sistemáticos relacionados ao instrumento de medição utilizado [3].

Para grandezas obtidas através de múltiplas medições diretas, como o ângulo crítico e o intervalo de tempo de deslize, a incerteza padrão combinada é dada pela equação:

Para grandezas obtidas de forma indireta, como os coeficientes de atrito estático e dinâmico, que são calculados a partir de outras grandezas medidas, deve-se aplicar a regra geral de propagação de incertezas, como disponível no Guia para a Expressão da Incerteza de Medição - GUM [1]:

A regra geral é válida sob a hipótese de que as grandezas de entrada são independentes entre si, uma hipótese razoável no experimento tendo em vista que as medições foram efetuadas por instrumentos e procedimentos distintos.

#Material utilizado

Parte 1: base de ferro; haste cilíndrica; rampa milimetrada; suporte conectando a haste à rampa; indicador de ângulo; obstáculo de fim de percurso; cronômetro; recipiente retangular com base de feltro.

Parte 2: rampa milimetrada; indicador de ângulo; obstáculo de fim de percurso; recipiente retangular com base de feltro; fio conectado a um gancho de plástico; kit de massas padrão; polia; suporte conectando rampa e polia.

#Procedimento Experimental

Parte 1.1: Ângulo Crítico de Deslize

O objeto foi posicionado sobre a rampa inclinada. A inclinação da rampa foi aumentada até que o objeto deslizasse a partir do repouso. Nessa primeira aproximação, adotou-se intencionalmente uma inclinação superior ao necessário para o deslize para se obter uma estimativa do ângulo crítico que foi registrado acompanhado da devida incerteza, .

Após a primeira leitura, a inclinação da rampa foi reduzida até o objeto permanecer em repouso, sem tendência ao deslize. Posteriormente, a inclinação foi gradualmente aumentada, registrando-se o valor de . Este ciclo de aproximação foi repetido cinco vezes, gerando uma coleção de ângulos críticos.

Parte 1.2: Cronometragem do Deslizamento

A rampa foi fixada no ângulo , valor mantido dentro do intervalo ao longo de toda a série de medições. Para cada repetição, a posição inicial do objeto sobre a rampa foi marcada e registrada, então o objeto foi liberado a partir do repouso. Cronometrou-se o intervalo de tempo decorrido entre a liberação e o impacto na base da rampa. Este procedimento foi repetido seis vezes, gerando o conjunto de medidas repetidas do intervalo de tempo do deslizamento do objeto.

Ao final da série de medições, a massa do objeto foi determinada em uma balança digital, obtendo-se, considerando a incerteza instrumental, .

Parte 2: Deslizamento no Sistema com Polia

O objeto foi conectado por meio de um fio a um gancho de plástico suporte de massas. O fio foi direcionado por uma polia fixada na extremidade superior da rampa com , de forma que a força de tração feita pelas massas suspensas atuasse sobre o recipiente paralelamente à superfície da rampa.

Massas foram adicionadas ao gancho suspenso gradualmente até que o objeto deslizasse. Como primeira tentativa foram realizados incrementos grandes para localizar um bom intervalo de massa pendurada crítica para o deslize, por meio desse procedimento, determinou-se o intervalo (40,02 - 45,02) g. Tomando como base o limite inferior do intervalo, adicionou-se ao gancho incrementos sucessivamente menores para refinar a estimativa da massa crítica de transição entre o regime estacionário e o deslizamento. O processo foi repetido seis vezes, resultando em seis intervalos de massa sucessivamente mais refinados.

#Apresentação dos Resultados

Massa medida do objeto , incerteza Tipo B (resolução da balança digital).

Parte 1.1: Tabela de Dados Ângulo Crítico

Medição (°)
1ª 27°
2ª 24°
3ª 26°
4ª 25°
5ª 26°
6ª 26°

Média (): 25,67° Desvio Padrão Amostral (): 1,033° Incerteza Tipo A: 0,422° Incerteza Tipo B (resolução do inclinômetro): 1° Incerteza Combinada: 1,08° Resultado: 25,67° ± 1,08°

Parte 1.1: Coeficiente de Atrito Estático

Parte 1.2: Tabela de Dados - Deslocamento e Tempo

Medição Posição Inicial (cm) Posição Final (cm) Deslocamento (cm) Tempo (s)
1ª 64,3 95,9 31,6 0,74
2ª 64,3 96,2 31,9 0,60
3ª 64,3 96,3 32,0 0,66
4ª 64,3 96,4 32,1 0,60
5ª 64,3 96,4 32,1 0,53
6ª 64,3 96,3 32,0 0,66
Média 64,3 96,25 31,95 0,632
Desvio Padrão Amostral () 0 0,187 0,192 0,0736
Incerteza Tipo A 0 0,076 0,078 0,0300
Incerteza Tipo B 0,1 0,1 0,141 0,2
Incerteza Combinada 0,1 0,128 0,161 0,202
Resultado 64,3 ± 0,1 96,25 ± 0,13 31,95 ± 0,16 0,632 ± 0,202

Obs: Incerteza Tipo B do Deslocamento refere-se a uma incerteza combinada de cada leitura (posição inicial e final) na régua.

Parte 1.2: Coeficiente de Atrito Cinético

Parte 2: Tabela de Dados - Deslizamento no Sistema com Polia

Medição Intervalo de Massas Penduradas (g) Valor Médio (g)
1ª 40,02 - 45,02 42,52
2ª 41,02 - 42,02 41,52
3ª 43,52 - 44,52 44,02
4ª 43,52 - 44,52 44,02
5ª 45,02 - 45,52 45,27
6ª 43,52 - 44,02 43,77

Média: 43,52 g Desvio Padrão Amostral (): 1,3134 Incerteza Tipo A: 0,5362 Incerteza Tipo B (resolução balança): 0,01 Incerteza Tipo B (conjunto de pesos): 0,5 Incerteza Combinada: 0,7332 Resultado: 43,52 ± 0,73

Parte 2: Coeficiente de Atrito Estático

#Conclusões

A partir da realização das duas principais partes do experimento, foi possível estimar os coeficientes de atrito estático e cinético em cada situação. Os valores de de cada experimento apresentaram boa concordância ( na Parte 1 e na Parte 2), enquanto o coeficiente cinético apresentou valor inferior que ambos (), comprova que o objeto possui um comportamento compatível com atritos antes do início do movimento e durante o deslizamento.

As incertezas obtidas foram significativamente diferentes entre os métodos. Essa diferença está relacionada principalmente às grandezas utilizadas em cada cálculo e à forma como suas incertezas são propagadas. Para os coeficientes de atrito estático, a incerteza foi de apenas (0,023), mostrando uma boa precisão, enquanto a incerteza para o coeficiente cinético foi cerca de seis vezes superior (0,120). As principais fontes de incerteza foram os valores estabelecidos por resolução ou informações direto do fabricante, que seriam incertezas Tipo B, o qual não é possível ter muito controle, além de tentar mudar de instrumento ou modo de medir.

#Bibliografia

[1] INMETRO. Avaliação de dados de medição: Guia para a expressão de incerteza de medição – GUM 2008. Duque de Caxias, RJ: Inmetro, 2012. 141 p.

[2] NUSSENZVEIG, H. Moysés. Curso de física básica, volume 1: mecânica. 5. ed. São Paulo: Blucher, 2013.

[3] UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS. Centro de Ciências Exatas e de Tecnologia. Departamento de Física. Avaliação e representação de medições e de suas incertezas. São Carlos: UFSCAR.

[4] CAMPOS, Agostinho Aurélio; ALVES, Elmo Salomão; SPEZIALI, Nivaldo Lúcio. Física experimental básica na universidade. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, Departamento de Física, 2018.

#Apêndice 1: Média e Incerteza do Ângulo Crítico

Tratamento estatístico dos dados obtidos no processo de determinação do ângulo crítico de deslize envolve repetições.

Média amostral:

Desvio padrão amostral:

Incerteza Tipo A:

Incerteza Padrão Combinada:

Cálculos da Média, Variância e Incerteza dos Dados Obtidos:

Incerteza combinada considerando (estimativa Tipo B de resolução instrumental):

#Apêndice 2: Propagação de Incerteza para

Formalização do cálculo do coeficiente de atrito estático e sua respectiva propagação de incerteza a partir do ângulo crítico. No plano inclinado, a iminência de movimento de um objeto de massa implica:

Fazendo :

Aplicando a lei de propagação de incertezas para um modelo com uma variável de entrada , a incerteza combinada é dada por:

Determinando a derivada e montando a equação para a propagação da incerteza padrão combinada:

Aplicando os valores obtidos pela média e incerteza combinada do ângulo , ; dado que a derivada foi calculada analiticamente, é necessário converter para radianos:

#Apêndice 3: Tratamento Estatístico para a Parte 1.2

Tratamento dos dados obtidos na Parte 1.2 do ensaio: determinação do deslocamento e tempo de descida do objeto em deslize para o cálculo do coeficiente de atrito cinético.

Média aritmética:

Desvio padrão amostral:

Incerteza Tipo A:

Incerteza Tipo B:

Deslocamento é resultado da diferença entre duas leituras independentes na mesma régua, combinamos suas incertezas:

A incerteza oriunda da cronometragem do tempo foi considerada como sendo a variabilidade do tempo de reação motora do operador, fixada em .

Incerteza Padrão Combinada:

Cálculos: Posição Inicial, Final, Deslocamento, Tempo e suas Incertezas

A posição inicial de liberação do objeto foi mantida constante em . Portanto, desconsideramos a incerteza Tipo A, tendo como resultado final: .

Conjunto de valores medidos da posição final do objeto:

Incerteza Tipo A de :

Incerteza Combinada, com :

#Apêndice 4: Média e Incerteza da Massa Crítica Pendurada para a Parte 2

Tratamento estatístico dos dados obtidos no processo de determinação da massa crítica pendurada para o deslize do objeto, com inclinação de , envolvendo repetições.

Valor médio do intervalo (utilizado para obter a média amostral):

Média amostral:

Desvio padrão amostral:

Incerteza Tipo A:

Incerteza Padrão Combinada:

Cálculos da Média, Variância e Incerteza dos Dados Obtidos:

Incerteza combinada considerando (estimativa Tipo B de resolução instrumental da balança digital) e (estimativa Tipo B da especificação técnica dos conjuntos de pesos):

#Apêndice 5: Propagação de Incerteza para para a Parte 2

Formalização do cálculo do coeficiente de atrito estático e sua respectiva propagação de incerteza a partir da massa crítica e do ângulo de inclinação. No sistema de massa pendurada e polia, a iminência de movimento de um objeto de massa crítica implica:

Fazendo , e :

Aplicando a lei de propagação de incertezas para um modelo com uma variável de entrada , a incerteza combinada é dada por:

Substituindo as derivadas e os valores na fórmula:

Obtemos que:

© 2026 Paulo Amarante. No rights reserved.